terça-feira, 25 de junho de 2019

O melhor dos mundos possíveis?

António Padrão



«Seja qual for a maneira como Deus criou o mundo, ela teria sido sempre regular e com uma certa ordem geral. Deus, porém, escolheu a mais perfeita, ou seja, aquela que é ao mesmo tempo a mais simples em hipóteses e a mais rica em fenómenos.»
Gottfried Leibniz (1686), Discurso de Metafísica, § 6.
Mundos possíveis
Imagine, caro leitor, que o autor deste texto que está agora mesmo a ler não é calvo (para quem não sabe, o autor deste texto é mesmo calvo). Imagine que a Lua não existe. Imagine que não existem buracos negros. Imagine que, em 2014, António José Seguro tinha vencido as primárias do PS e que António Costa não tinha chegado a primeiro ministro. Imagine que Luís Montenegro (que quis fazer a Rui Rio o que António Costa fez a António José Seguro – apesar de afirmar o contrário) tinha conseguido vencer a disputa pela liderança do PSD e que era, agora, presidente do PSD. Imagine que António Costa, quando constituiu o governo, tinha nomeado outro ministro da Educação que percebesse alguma coisa de educação. Imagine que todos os alunos são mesmo estudantes. Imagine que não existe mal no mundo. Agora, imagine que o mundo é exatamente como é, exceto no que respeita à primeira coisa que imaginou: acabou de conceber um mundo em que o autor destas linhas não é calvo, não havendo mais nenhuma diferença em tudo o resto. Para cada uma das outras coisas que imaginou acima, é possível imaginar um mundo que só difere do atual naquilo que imaginou. Também é possível imaginar um mundo que difere do atual em duas, ou três, ou quatro, ou mesmo todas as coisas que imaginou antes. Espero que esteja a ver, caro leitor, aonde é que este exercício de imaginação nos leva: a uma infinidade de mundos possíveis.
Os filósofos utilizam a expressão «mundo possível» para se referirem a um modo como as coisas podem ser. E para se referirem ao modo como as coisas efetivamente são, utilizam a expressão «mundo atual» ou «mundo efetivo». É claro que o mundo atual, ou mundo efetivo, é também um dos mundos possíveis. «Atual», neste contexto, não significa «do tempo presente», mas «que existe em ato».
A ideia de mundos possíveis alternativos tem sido explorada por vários filósofos e por escritores de ficção científica, ou de romances, entre outros.
O melhor dos mundos possíveis
Será que vivemos no melhor dos mundos? Leibniz (1646-1716) – filósofo, matemático e erudito alemão – pensava que sim: Deus criou o melhor de todos os mundos possíveis. Deus tinha à sua escolha uma infinidade de hipóteses de criação do mundo e decidiu dar existência a este nosso mundo. E não foi o único a pensar tal coisa. Antes dele, Abelardo (1079-1142) defendeu que Deus não poderia ter feito um mundo melhor do que aquele que fez (Kenny, 2011). E Malebranche (1638-1715) sustentou que o mundo em que vivemos, criado por Deus, é apenas um entre os muitos mundos possíveis que Deus poderia ter criado, diferindo destes pela grande simplicidade das suas leis (Mautner, 2010).
O que há de comum nestas três posições? A ideia de que foi Deus quem criou o mundo.
Mas será verdade que Deus criou o mundo? Para ter criado o mundo, Deus tem de existir. Para Leibniz, Deus é o único ser necessariamente existente. Mas será verdade que Deus existe? Temos boas razões para acreditar na Sua existência? E será o conceito de Deus coerente? Estas questões exemplificam o tipo de problemas tratados em Filosofia da Religião. A Filosofia da Religião é uma área da filosofia que reflete sobre os conceitos e as crenças fundamentais das religiões: sobre os conceitos das religiões (por exemplo, os conceitos de Deus, de fé, de milagre e de omnipotência), procura compreender o seu significado e analisar a sua coerência; e sobre as crenças religiosas (por exemplo, as crenças de que Deus existe, de que há vida depois da morte, de que Deus sabe tudo a nosso respeito – incluindo o que vamos fazer no futuro –, de que a existência do mal é consistente com a perfeição de Deus), procura avaliar as justificações que podemos ter para elas.
Serão os atributos do Deus teísta consistentes?
Façamos de filósofos da religião e examinemos criticamente o conceito de Deus. Quando Abelardo, Malebranche ou Leibniz dizem que Deus criou o mundo, que ideia de Deus têm em mente? Quando dizemos que Deus existe, ou que Deus não existe, qual é o conceito de Deus que temos em mente? (Repare, caro leitor, que não podemos deixar de responder a esta questão, mesmo que digamos que não acreditamos em Deus. Se não acreditamos em algo, temos que ter uma ideia desse algo em relação ao qual dizemos que não acreditamos.)
O conceito de Deus que Abelardo, Malebranche ou Leibniz tinham em mente é o conceito de Deus teísta, isto é, um ser com os seguintes atributos: omnipotente (pode fazer tudo), omnisciente (sabe tudo), sumamente bom (moralmente perfeito), criador (fez o universo) e é uma pessoa (não é uma força da natureza, é um agente como nós).
Será o conceito de Deus teísta coerente? Algum dos atributos de Deus é em si incoerente? Poderá existir um ser com estes atributos? Serão os atributos do Deus teísta consistentes? Com esta última pergunta, o que queremos saber é se as seguintes proposições podem ser simultaneamente verdadeiras: Deus é omnipotente; Deus é omnisciente; Deus é sumamente bom; Deus é criador; Deus é uma pessoa. Se concluirmos que estas proposições não podem ser simultaneamente verdadeiras, então isso significa que os atributos do Deus teísta são inconsistentes; logo, não pode existir um ser com aqueles atributos. Logo, Deus será impossível. Mas, se conseguirmos mostrar que os atributos de Deus são consistentes, no sentido em que definimos anteriormente a consistência, daí não se segue que o Deus teísta exista mesmo; segue‑se apenas que pode existir. Vejamos um argumento que procura mostrar que um atributo de Deus é incoerente, e outro que procura mostrar que a combinação de atributos é inconsistente (para estes e outros argumentos, ver, por exemplo, Faria (2018), e Rowe (2011)).
O «paradoxo da pedra», como é conhecido, é um argumento que visa mostrar que há algo que Deus não pode fazer; portanto, não é omnipotente. O argumento pode ser apresentado assim:
Ou Deus tem o poder de criar uma pedra tão pesada que Ele próprio seja incapaz de a levantar ou não tem esse poder. Se tem o poder de criar tal pedra, então há algo que Deus não pode fazer: levantar a pedra que criou. Se não tem o poder de criar tal pedra, então há também algo que Ele não pode fazer: criar uma pedra tão pesada que Ele próprio seja incapaz de a levantar. Em qualquer dos casos, há algo que Deus não pode fazer. Logo, Deus não é omnipotente.
Vejamos agora um argumento que procura mostrar que a combinação de atributos divinos é inconsistente. Com este argumento, formulado por Faria (2018), citando Morriston (2001), pretende-se defender que os atributos da omnipotência e da perfeição moral são inconsistentes.
Suponha-se que há um Deus que é simultaneamente omnipotente e moralmente perfeito. Um ser omnipotente pode fazer qualquer coisa que seja logicamente possível. Ter a propriedade de ser moralmente perfeito implica ser impecável (ou ser incapaz de proceder de forma moralmente errada) e, por isso, há coisas que um ser moralmente perfeito não pode fazer, como assassinar, mentir, quebrar promessas, entre outras. Logo, há um Deus que simultaneamente pode fazer tudo o que é logicamente possível e simultaneamente não pode fazer tudo o que é logicamente possível. Logo, não há um Deus que é simultaneamente omnipotente e moralmente perfeito.
Serão estes bons argumentos? Serão argumentos sólidos? Se forem sólidos, isto é, válidos e com premissas verdadeiras, então, caro leitor, como seres racionais, só nos resta aceitar que o Deus teísta não existe nem poderia existir. Deixo ao leitor o desafio de mostrar onde está a falha destes argumentos, mas digo-lhe já que não está na validade. Portanto, se pensa que as conclusões dos argumentos são falsas, tem que mostrar que pelo menos uma das premissas de cada um dos argumentos é falsa.
O problema do mal
Acredito que o leitor tenha sido bem-sucedido na resposta ao desafio que lhe lancei, isto é, que foi capaz de mostrar que afinal aqueles dois argumentos não provam que o Deus teísta não possa existir. Mas se não foi capaz, pode ler em Rowe (2011) e em Faria (2018) uma discussão daqueles argumentos.
Regressemos a Leibniz, que, como vimos, defende que Deus não só criou o mundo, como criou livremente o melhor dos mundos possíveis. E por que razão criou Deus o melhor dos mundos possíveis e não qualquer outro?
Leibniz sublinha que o pensamento de Deus contém uma infinidade de mundos possíveis […]. Todos estes mundos são compostos de substâncias e acidentes e têm uma certa tendência para existir. Mas apenas o melhor deles, i.e., a composição mais perfeita, é efetivado. A competição entre mundos possíveis é decidida pelo princípio do melhor, princípio que favorece o mundo que melhor realiza o princípio minimax, i.e., um mundo com um mínimo de regras ou leis e um máximo de estados de coisas, ou, como Leibniz também diz, um mínimo de causas e um máximo de efeitos, ou um mínimo de meios e um máximo de fins. (Mautner, 2010, pp. 442-443)
Sendo Deus um agente racional, omnisciente e infinitamente bom, não poderia ter deixado de escolher o melhor. Além disso, Deus criou um mundo com uma harmonia preestabelecida.
Mas – objetará o leitor – como pode ser este o melhor dos mundos possíveis, se o autor deste texto nem sequer pode candidatar-se a guarda-florestal, por ser careca no mundo atual, ao contrário do que aconteceria naquele outro mundo possível que imaginou, logo no início do texto, que era em tudo igual a este, exceto na calvície do autor deste texto? (Sim, caro leitor, ambos acabámos de ouvir nos noticiários que o aviso de abertura de procedimento concursal para o ingresso na carreira de guarda-florestal, recentemente publicado no Diário da República, impede os carecas de se candidatarem. Ora, ambos pensamos que um mundo em que o autor deste texto possa fazer tudo o que o que pode fazer no mundo atual, e ainda por cima possa candidatar-se a guarda-florestal, é melhor do que o mundo atual). E então, continuará o leitor, aquele outro mundo possível que imaginámos, que difere do atual apenas por ter outro ministro da Educação que percebe alguma coisa de educação, não será melhor do que o atual? (Não é plausível pensar que é melhor ter alguém a decidir sobre assuntos de que é conhecedor do que alguém que não percebe nada desses assuntos?)
Parece que com estes exemplos embaraçámos Leibniz, mas não. O facto de o nosso mundo ser o melhor dos mundos possíveis não significa que seja o melhor para cada indivíduo que nele existe. Pode haver um mundo possível que seja o melhor para um indivíduo em particular (por exemplo, o mundo em que o autor deste texto não seja calvo) ou para um conjunto de indivíduos (por exemplo, para os alunos, pais e professores portugueses, o mundo em que o ministro da Educação perceba alguma coisa de educação), mas, globalmente, o mundo não seria melhor. Para Leibniz, seria impossível tornar este mundo melhor, melhorando ligeiramente qualquer substância, ou conjunto de substâncias e qualidades, pois isso iria perturbar o equilíbrio do mundo e piorar outra coisa qualquer. Ou seja: se tivéssemos um ministro da Educação melhor, isso iria, certamente, impedir que outros países tivessem bons ministros da Educação, de modo que, globalmente, o mundo seria pior.
Talvez o leitor tenha pensado numa objeção mais forte: como pode ser este o melhor dos mundos possíveis, se existe nele tanto mal? Terramotos, epidemias, doenças, homicídios, guerras, genocídios, pedofilia, fome. Como é possível que exista mal no melhor dos mundos possíveis? Como é possível que exista mal num mundo criado por Deus? Deste modo, estará o leitor a formular o problema do mal – uma das mais fortes objeções à existência de Deus.
Será que esta objeção embaraçaria Leibniz? Bem, Leibniz refletiu sobre o problema do mal, escrevendo até uma obra – Ensaios de Teodiceia – para defender a justiça divina perante os males do mundo e justificar as atividades de Deus.
Pode ser que voltemos a Leibniz na próxima defacto. Até lá, deixo ao leitor o desafio de responder ao problema do mal, a saber: será a existência de Deus compatível com a existência de mal no mundo?

Referências bibliográficas
Faria, D. (2018). Deus em Análise – Uma Introdução à Filosofia da Religião. Edição de Autor.
Kenny, A. (2011). Ascensão da Filosofia Moderna: Nova História da Filosofia Ocidental, vol. 3. Lisboa: Gradiva.
Mautner, T. (2010). Dicionário de Filosofia. Lisboa: Edições 70.
Rowe, W. L. (2011). Introdução à Filosofia da Religião. Lisboa: Babel.

Originalmente publicado na revista defacto, n.º 27, maio 2019 (revista da Escola Secundária de Alberto Sampaio).

sábado, 27 de abril de 2019

A existência de Deus

 Textos e problemas de filosofiaSerá que Deus existe? Muitas pessoas são educadas de forma religiosa, nunca colocando em causa a sua fé. Outras são educadas de forma não religiosa, nunca colocando em causa a sua ausência de fé. Mas, independentemente do modo como fomos educados, haverá boas razões para pensar que Deus existe ou não? Recorrendo exclusivamente ao pensamento e aos sentidos, não nos apoiando por isso na tradição e nos livros considerados sagrados, poderemos provar que Deus existe? Por prova não se entende, neste contexto, uma prova científica ou matemática; o que está em causa é saber se há bons argumentos a favor da existência de Deus — argumentos que qualquer pessoa que os avalie de forma imparcial estará disposta a aceitar, independentemente do modo como foi educada.

Das diferentes concepções de Deus, a filosofia tem-se ocupado na sua maior parte da concepção teísta de Deus.

n O teísmo é a crença de que o Deus teísta existe.
n O Deus teísta é sumamente bom, omnipotente, omnisciente, criador e uma pessoa.

O teísmo defende que Deus é moralmente perfeito, todo-poderoso, tem conhecimento de tudo, criou tudo o que existe e não é uma força impessoal, mas sim uma pessoa não humana.

n O ateísmo é a crença de que Deus não existe.
n O agnosticismo é a suspensão da crença quanto à existência de Deus.

n A  é uma crença religiosa.

Na discussão sobre a existência de Deus, foram apresentadas ao longo dos tempos diferentes versões dos seguintes tipos de argumentos:
1. Argumentos cosmológicos: 1) Baseados na ideia de que tem de haver uma só causa para a totalidade do universo; 2) baseados na contingência do mundo.
2. Argumentos ontológicos: Baseiam-se na ideia de que a existência de Deus se segue da sua definição.
3. Argumentos do desígnio: 1) Baseados na ordem do mundo (nomológicos); baseados na adequação das coisas a fins (teleológicos).
4. Argumentos morais: Baseiam-se na ideia de que a existência de Deus é uma exigência da moralidade.
5. Argumentos baseados nos milagres: Baseados na ideia de que a ocorrência de acontecimentos que violam as leis da natureza prova a existência de uma inter­venção divina.
6. Argumentos baseados na experiência religiosa: Baseiam-se nas visões ou sentimentos que os crentes têm.
         
Almeida, A. & Murcho, D. (2006). Textos e problemas de filosofia. Lisboa: Plátano Editora, pp. 166-167.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Pseudociência

Pseudociência, ou falsa ciência, é tudo o que pretende passar por ciência, talvez na tentativa de obter o prestígio e o reconhecimento de que a ciência goza, mas não é de facto ciência. E não é ciência porque não reconhece de forma permanente e inequívoca a exis­tência de eventuais erros. Um cientista procura sempre saber se está enganado (se está, fica contente quando deixa de estar). Um pseudocientista, se esta designação faz algum sentido como pro­fissão, não admite que se engana e não procura por isso o erro (mais: costuma ficar irritado quando lhe apontam o dislate). As atividades pseudocientíficas são numerosas no mundo de hoje: exemplos são a numerologia, a astrologia, a radiestesia, a alquimia, a quiromancia, etc., etc. Há até quem leia o futuro nas borras do café, tendo esse ofício não só uma designação especifica, como uma comunidade de adeptos. São mais as pseudociências do que as ciências.
Existe, em geral, uma relação histórica entre pseudociência e ciência: aquela precedeu esta (a numerologia foi anterior à matemá­tica, a astrologia anterior à astronomia, a alquimia anterior à química). Poderia, por isso, pensar-se que as pseudociências teriam sido substituídas pelas ciências e abandonadas, mas não é assim: as pseudociências coexistem hoje com as ciências, confundindo-se umas e outras aos olhos e nos cérebros de muita gente. Um paradoxo muito interessante das sociedades desenvolvidas (e cujo desenvolvimento deriva precisamente do cultivo das ciências e das tecnologias) é o facto de as pseudociências continuarem a ocupar um papel socialmente relevante.
Mas convém estar atento e descobrir as diferenças: assim como a definição de atividade científica — a busca do erro — não assenta nas várias atividades pseudocientíficas, também os traços característicos da ciência — a comunicação e a acumulação — não se encontram onde a ciência falta. A astrologia não é astronomia porque um astrólogo não se expõe à critica dos pares (onde é que já se viu um astrólogo corrigir outro?) e porque a astrologia de hoje é essencialmente a astrologia de há um século (pode até ser feita com computadores, mas a forma não rejuvenesce o conteúdo).
Usando estes critérios simples, não será difícil ao leitor distinguir entre o que é ciência e o que, não o sendo, quer passar por ela.
Portugal, um pais em desenvolvimento, está cada vez mais exposto a correntes pseudocientíficas. Qual é o remédio? Mais ciência, mais cultura científica. Os cientistas, os professores de ciências, os cidadãos cientificamente cultos têm o dever, mais do que o direito, de mostrar ao público o valor da ciência, o que ela já conseguiu para o enriquecimento humano e o mais que poderá ainda conseguir (e que excede em muito os resultados da tecnologia que nos têm garantido a sobrevivência física). A ciência é um ingrediente da cultura, da civilização neste planeta. Nas palavras autori­zadas de Albert Einstein, escolhido pela revista Time como «homem­ do século»:
Comparada com a realidade, a nossa ciência pode parecer primi­tiva e infantil, mas é a coisa mais preciosa que temos.

Fiolhais, C. (2002). A coisa mais preciosa que temos. Lisboa: Gradiva, pp. 20-21.

Demarcação

Há um grande ceticismo sobre a possibilidade de se distinguir efetivamente a ciência da não-ciência. A ideia de que não podemos ter um critério de demarcação satisfatório é motivada pelas tentativas falhadas de prover tal critério no passado, e pela observação da diversidade cada vez maior de métodos e finalidades das disciplinas que somos inclinados a considerar como científicas. Como podemos esperar oferecer uma explicação unificada do que faz da investigação uma investigação científica, em disciplinas tão diferentes como a física, a geologia e a economia?
Ainda que a tarefa de delimitar a ciência possa parecer infrutífera, há muito boas razões para continuar a insistir. É importante saber em que especialistas se deve confiar, que projetos de investigação financiar, que teorias ensinar nas escolas. E as decisões sobre estas questões não podem ser tomadas apenas com base na consistência teórica ou na aparente adequação da teoria aos dados empíricos. Precisamos de uma explicação do que a ciência é, do que os cientistas fazem e de que metas e métodos caracterizam a investigação científica. Não é provável que a explicação bem‑sucedida (se é que tal coisa existe) seja muito específica, pois é um facto que a especialização conduziu a uma série de conceitos diferentes de indícios e, além do mais, a diferentes critérios para o êxito nas ciências naturais e entre estas e as ciências sociais.
As questões ligadas à delimitação da ciência adquirem grande importância na sociedade contemporânea, onde a ciência é investida de uma autoridade e responsabilidade especiais. Os cientistas são muitas vezes quem aconselha os governantes sobre as políticas a seguir, e as suas opiniões são amplamente solicitadas e ouvidas nos meios de comunicação. Em virtude dos seus conhecimentos especializados, do seu estatuto enquanto cientistas, alguns deles são chamados a encontrar soluções para muitos dos nossos problemas quotidianos, desde lidar com os efeitos das secas a evitar que novos programas de ensino produzam efeitos adversos nas crianças. Se é atribuída tanta responsabilidade quer aos cientistas quer à comunidade científica como um todo, parece que precisamos com alguma urgência de uma explicação sobre o que é uma disciplina propriamente científica, por oposição ao exercício de disciplinas que não partilham da mesma respeitabilidade e autoridade social, como a astrologia e a quiromancia. Além do mais, fazer investigação científica em muitas áreas (em biomedicina, agricultura, em recursos energéticos renováveis, por exemplo) pode trazer grandes benefícios às pessoas e às sociedades, e portanto é algo que deveria ser amplamente apoiado e promovido. Se a ciência tem algum valor num contexto de recursos públicos limitados, ele está em fazer pressão para que possamos ser capazes de identificar exemplos genuínos de investigação científica e projetos de investigação válidos.
Na tradição, a discussão sobre o critério de demarcação entre a ciência e a não-ciência estruturava-se em torno da tentativa de explicar por que razão a física é uma ciência e a astrologia não, e de que maneira o método científico é diferente da magia ou da revelação divina. Hoje, porém, os filósofos que se interessam pelo critério de demarcação têm em mente um conjunto de questões inter-relacionadas, e não aspiram necessariamente a fornecer uma descrição da ciência que responda a todas elas de uma só vez.
Eis uma lista provisória:
·      Será que o tema da investigação é importante para se saber se um projeto de investigação é considerado científico?
·      Podem a antropologia, a psicologia e a economia ser consideradas ciências legítimas mesmo não sendo governadas por leis?
·      O criacionismo tem a aparência superficial de uma ciência. Ora, por que razão não é visto por muitos como uma teoria científica legítima?
·      Qual é a diferença entre a filosofia e a ciência, uma vez que ambas pretendem chegar a uma melhor compreensão dos fenómenos à nossa volta?
No século xx, filósofos inspirados por um movimento chamado Positivismo Lógico analisaram formas de obter e organizar conhecimento com vista a identificar diferenças importantes entre a ciência e a metafísica e entre a ciência e a ética. Os positivistas lógicos, muitos dos quais formados em ciências naturais, sociais ou matemática, acreditavam fortemente no valor da ciência (é por isso que se chamam positivistas lógicos), tentando justificar o seu estatuto de única fonte respeitável de conhecimento factual ao analisarem a estrutura lógica e a linguagem das alegações de conhecimento (é por isso que se chamam positivistas lógicos). Um dos objetivos deste capítulo é passar em revista e avaliar os pontos fortes e as limitações da sua explicação da demarcação entre a ciência e a não-ciência, antes de passar ao exame dos desenvolvimentos posteriores das suas ideias e das objeções que tal explicação originou.
Algumas destas objeções podem ser encontradas nas obras de Karl Popper, Paul Thagard e Paul Feyerabend. Popper, que partilha alguma da ênfase dos positivistas lógicos no valor e na objetividade da ciência, segue uma linha de orientação diferente na sua procura de um critério de demarcação. Acredita que a ciência é a tarefa racional por excelência e procura ativamente uma estratégia viável para distinguir as teorias científicas genuínas das teorias que à primeira vista parecem científicas, mas que não conseguem sê-lo (exemplos de pseudociência).
Ao contrário de Popper e dos positivistas lógicos, Thomas Kuhn dá ênfase aos fatores históricos e sociais que determinam o êxito de uma teoria científica ou de um projeto de investigação. Uma teoria ou um projeto podem ser considerados científicos num contexto histórico e social mas não noutro, pois os critérios que uma teoria ou um projeto precisam de satisfazer para poderem ser considerados ciência também variam com base na análise feita por Kuhn da ciência sensível à história, Thagard desenvolve um critério de demarcação dependente do contexto, que tenta explicar por que razão algumas disciplinas podem ver o seu estatuto mudar de científico para pseudocientífico ou vice-versa. Feyerabend adota uma posição mais radical, negando qualquer espécie de estatuto especial à ciência. Argumenta contra a pretensa supremacia da metodologia científica sobre tradições alternativas de pensamento.

Bortolotti, L. (2013). Introdução à filosofia da ciência. Lisboa: Gradiva, pp. 17-20.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

ELEMENTOS DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA E DA CIÊNCIA

António Padrão


Ciência e filosofia: uma origem comum
A 14 de março de 2018, morreu Stephen Hawking, o mais conhecido cientista da atualidade e um dos mais extraordinários cientistas de sempre. A 14 de março de 1879 (139 anos antes da morte de Stephen Hawking), nasceu, em Ulm, na Alemanha, Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade e Prémio Nobel da Física, em 1921. A 8 de janeiro de 1642, 300 anos antes do nascimento de Stephen Hawking, morreu Galileu Galilei — o pai da ciência moderna.
Stephen Hawking (1942-2018), Albert Einstein (1879-1955) e Galileu Galilei (1564-1642) são três dos mais conhecidos herdeiros de uma tradição que teve o seu início no séc. VI a.C., na Grécia antiga, mais precisamente na cidade de Mileto, na Jónia — uma colónia grega na Ásia Menor —, com pensadores como Tales (c.625-545 a.C.), Anaximandro (c.610-547 a.C), Anaxímenes (fl. 546-525 a.C.) — que criaram a primeira escola filosófica grega (a Escola de Mileto) —  e outros que se lhes seguiram.
A partir do século VI a.C., os elementos de religião, ciência e filosofia fermentam juntos num caldeirão cultural. Com a nossa distância temporal, os filósofos, os cientistas e os teólogos podem todos olhar para trás, para estes primeiros pensadores, e considerá-los seus antepassados intelectuais. (Kenny, 2010, p. 21)
A ciência, a filosofia e o pensamento racional que as caracteriza surgiram, pois, no século VI a.C., na Grécia (apesar de o próprio pensamento grego ter sofrido influências egípcias e de alguns autores indicarem que a China e, sobretudo, a Índia tinham especulações que mereciam ser consideradas filosóficas, apresentamos aqui a tradição ocidental iniciada na cultura grega). É verdade que o pensamento racional não se apresentou logo em toda a sua clareza e autonomia, não havendo uma distinção clara entre religião, ciência e filosofia. Mas o que fizeram estes primeiros pensadores para que, hoje, filósofos e cientistas os considerem seus antepassados intelectuais?
É aos pensadores jónicos (Tales, Anaximandro e Anaxímenes) que se devem as primeiras especulações racionais acerca da origem de todas as coisas. E o que distingue estas especulações das fantasias dos mitos é a tentativa de dar explicações da realidade com base na razão. Ao contrário dos que tudo procuravam explicar através dos mitos, os primeiros filósofos procuraram explicar o que é a natureza, o que são as cosias, qual a substância de que todas as coisas são feitas, como surgiu, do estado primitivo das coisas, este mundo multiforme e ordenado (Cornford, 1981, p. 258).
O interesse dos filósofos jónicos foi orientado para a observação e  interpretação dos fenómenos naturais, razão pela qual se chama a estes primeiros filósofos fisiólogos, quer dizer, os que estudam a physis, a natureza. A observação direta do mundo visível é o ponto de partida para a elaboração racional das suas teorias. Mesmo que saibamos, hoje, que as suas teorias estavam erradas, a verdade é que vemos, desde os jónicos,
manifestarem-se já certos traços essenciais do futuro pensamento científico: desembaraçar o espírito de todos os preconceitos, de todas as teorias pré-concebidas, religiosas ou não, de tudo o que impede o acesso [ao conhecimento], para o tornar capaz de acolher os dados da experiência; só é verdade aquilo que se demonstra, verifica ou prova; não há fenómenos sem causa, explicar é encontrar a causa; o acaso e o sobrenatural não são explicações; um fenómeno natural deriva sempre de outro fenómeno natural; existe, por fim, uma ordem fundamental da natureza, um «cosmos» (palavra que quer dizer «ordem»), regido por princípios constantes, por leis. (Revel, 1971, p. 23)

Os quatro elementos: terra, água, ar e fogo
Afinal, que resposta deram os primeiros filósofos ao problema de saber de que são feitas as coisas? Qual a substância imutável subjacente a todas as mudanças do mundo natural?
Tales de Mileto, o pai fundador da filosofia grega e um dos Sete Sábios da Grécia, pensava que o princípio de todas as coisas, a substância primeira da qual todas as outras seriam apenas modificações, é a água. Talvez Tales tenha pensado que tudo provinha da água, por ter observado que todos os animais e plantas precisam de água para viver ou pelo facto de a vida animal principiar no fluido seminal. Pelo menos, é esta a conjectura de Aristóteles sobre as razões de Tales para considerar que a substância universal de que as coisas são feitas é a água. Até a terra, pensava Tales, assentava sobre a água, como um tronco a flutuar.
Sucessor de Tales na direção da Escola de Mileto, Anaximandro pensava que a substância original não podia ser nenhum dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), mas uma substância indeterminada subjacente aos quatro elementos. O princípio de todas as coisas é o apeiron — palavra que significa infinito, não no sentido matemático, mas no sentido de ilimitado ou indeterminado. Este princípio constituía uma espécie de unidade indistinta, da qual se engendram, por um processo de separação dos contrários, todas as coisas. Os primeiros contrários a surgir da matéria eterna indeterminada foram o calor e o frio, a partir dos quais se desenvolveram o fogo e a terra, que estão na origem do nosso universo. O apeiron é uma entidade imortal e incorruptível. Com o tempo, todas as coisas regressarão a essa unidade, a essa indeterminação, donde saíram.
Anaxímenes, discípulo de Anaximandro, considerou o apeiron do seu mestre um princípio demasiado abstrato e defendeu que o primeiro princípio da natureza, e aquilo sobre o qual a Terra repousa, é o ar. É do ar que nascem todas as coisas, por condensação e rarefação.
No seu estado estável o ar é invisível, mas quando é deslocado e condensado, torna-se primeiro vento, depois nuvem e a seguir água, e, por fim, a água condensada transforma-se em lama e pedra. O ar rarefeito torna-se fogo, completando assim a gama de elementos.   Desta forma, a rarefacção e a condensação conseguem conjurar tudo a partir do ar subjacente [...]. Para corroborar esta afirmação, Anaxímenes fazia apelo à experiência e, na verdade, à experimentação — experimentação que o leitor poderá facilmente realizar. Sopre na mão, primeiro com os lábios juntos e depois com a boca aberta — da primeira vez, o ar será frio; da segunda, quente. Isto, afirmava Anaxímenes, demonstra a relação entre densidade e temperatura [...]. (Kenny, 2010, p. 26)
A seguir aos filósofos da Escola de Mileto, os filósofos mais importantes são os da Escola Pitagórica, cujo fundador foi Pitágoras (c.570-495 a.C.), natural de Samos, uma ilha ao largo da costa da Ásia Menor. É a Pitágoras que se atribui a invenção da palavra «filósofo», isto é, amante da sabedoria, em oposição ao sábio (sofos). Pitágoras é conhecido, sobretudo, pelo teorema que tem o seu nome (apesar de ser muito duvidoso que tenha sido o primeiro a descobri-lo), segundo o qual o quadrado da hipotenusa de um triângulo retângulo é igual em área à soma dos quadrados dos outros dois lados.
Para os pitagóricos, o número é o princípio de todas as coisas.  Os números são os elementos diretamente representativos da realidade, ou melhor, das formas geométricas da realidade. Aquilo que faz com que as coisas sejam o que são é a sua estrutura geométrica ou forma. Estamos, pois, perante um princípio formal e já não material, como para os milésios.
Em meados do século VI a.C., a Jónia foi invadida pelos persas, tendo a cidade de Mileto sido destruída em 494 a.C. — o que obrigou a maior parte dos filósofos de origem jónica a mudarem-se para outras regiões do mundo grego: Siracusa, Agrigento, Crotona, Eleia. Com a morte de Pitágoras e a destruição de Mileto, termina a primeira fase do pensamento pré-socrático.
Alguns dos filósofos seguintes continuam a propor uma cosmologia e a procurar os elementos básicos que estão na origem de todas as coisas. Para Xenófanes de Cólofon (c.570-470 a.C), há dois elementos (terra e água); para Heraclito (c.535-475 a.C.), o elemento é o fogo (às vezes, também refere a terra e a água) e para Parménines (c.530-460 a.C), os elementos eram «formas». Anaxágoras (c.500-428 a.C) falou de um número infinito (ou indefinido) de elementos qualitativamente distintos (as homeomerias) e Demócrito (c.460-370 a.C.) de um número infinito de elementos (os átomos), mas é a Empédocles (c.492-432 a.C.) que se deve a formulação mais precisa da chamada «doutrina dos quatro elementos»: fogo, água, ar e terra (Mora, 1981, p. 909).
A filosofia da natureza de Empédocles constitui uma síntese do pensamento dos filósofos jónicos (Kenny, 2010). Empédocles pensa que o fogo, a água, o ar e a terra são as quatro substâncias, ou quatro raízes, que estão na origem de tudo quanto existe no universo. Estas substâncias, que existem desde sempre, combinam-se entre si pelo efeito de duas forças (o Amor e a Discórdia).
Empédocles ficou ainda conhecido por ter apresentado uma teoria da evolução através da sobrevivência do mais forte, o que levou Darwin a fazer-lhe um cumprimento n’A Origem das Espécies por «insinuar o princípio da seleção natural» (citado por Kenny, 2010, p. 40).
A doutrina dos quatro elementos exerceu uma grande influência na Antiguidade, na Idade Média e mesmo na época moderna. Filósofos e cientistas atribuíram-lhe um papel fundamental na física e na química, até ao século XVII — o século em que Robert Boyle (1627-1691), um físico e químico irlandês, considerado um dos fundadores da química, refutou a doutrina dos quatro elementos.
Apesar de ter sido refutada, a doutrina dos quatro elementos está na base de uma ideia fundamental:
Acreditar que podemos compreender a natureza última do universo se compreendermos os seus elementos mais simples é a base da grande aventura do conhecimento. Como todas as instituições, pode ser adequada ou inadequadamente desenvolvida, como se vê no contraste entre a química e a alquimia. (Murcho, 2016, pp. 255-256)

O quinto elemento: o éter
Aos quatro elementos de Empédocles, Aristóteles (384-322 a.C.) acrescenta um quinto: o éter (quinta-essência). Para Aristóteles, «a Terra é circundada por camadas de água, ar, fogo e, na parte mais externa, por algumas abóbadas que suportam os corpos celestes e consistem de um quinto elemento chamado ‘éter’» (Mautner, 2010, p.275). Os corpos terrestres eram constituídos pelos quatro elementos, mas os corpos celestes — os astros imortais — eram constituídos pelo éter.
O éter viria a desempenhar um papel importante na física clássica, uma vez que «seria o meio através do qual as ondas electromagnéticas se propagam, tal como o som se propaga através do ar.» (Hawking e Mlodinow, 2011, p. 98). No século XIX, a existência do éter era ainda dada como certa. Por exemplo, em 1884, Sir William Thomson, um famoso físico, mais conhecido como Lorde Kelvin, afirmou que o éter era «a única substância na dinâmica sobre cuja existência temos a certeza. Se há coisa de que estamos seguros é da realidade e substancialidade do éter luminífero» (citado por Hawking e Mlodinow, 2011, p. 101). Alguns anos mais tarde, a teoria da relatividade de Einstein viria a tornar obsoleta a hipótese da existência do éter. Afinal, o éter não existe nem precisa de existir, ao contrário do que tinham postulado os cientistas, no século XIX.

Razão
Apesar de reconhecerem a abordagem racional e a importância da ciência jónica na história das ideias humanas, Hawking e Mlodinow (2011, p. 25) não deixam de assinalar que por «mais perspicazes que algumas especulações dos antigos gregos sobre a Natureza tenham sido, a maior parte das suas ideias não poderia ser validada como ciência nos tempos modernos», com o que, evidentemente, concordamos. Os primeiros pensadores gregos não eram verdadeiros cientistas nem verdadeiros filósofos, e as suas explicações racionais misturam-se com especulações míticas, místicas e religiosas. Por exemplo, Tales, para além de ter afirmado que a água é o primeiro princípio de todas as coisas, também afirmou que todas as coisas estão cheias de deuses; e terá comemorado a descoberta do método para inscrever um triângulo retângulo num círculo com a oferta de um boi aos deuses. Pitágoras, apesar de ser conhecido como matemático, teve uma atividade principalmente religiosa, relacionada com os mistérios órficos, acreditando que a alma renascia noutros corpos (metempsicose). E Empédocles, influenciado por Pitágoras, também acreditava que as almas estão condenadas ao ciclo do nascimento e do renascimento, reencarnando como plantas, animais e seres humanos.
A razão não surgiu das trevas de um momento para o outro; pelo contrário, pensamento racional, pensamento mítico e pensamento religioso interpenetraram-se nas especulações dos primeiros filósofos.
Na Grécia antiga descobriu-se — esse foi um dos maiores avanços da humanidade — que as disputas entre humanos a respeito de certos assuntos se podiam dirimir com base numa boa discussão, que consiste na oferta e aceitação de argumentos e contra-argumentos, no apuramento das melhores razões de acordo com regras mutuamente aceites e na chegada a uma conclusão que é partilhada e transmitida a outros. [...] Foi, em suma, o alvorecer da racionalidade, pese embora esta ter continuado a coexistir com mitologias, superstições e medos. Começou o que podemos chamar idade da razão. (Fiolhais, 2002, pp. 38-39)
É verdade que a razão nem sempre é bem usada e enfrenta vários inimigos: a religião, o relativismo, o «pós-modernismo», a «pós-verdade», mas — felizmente — a «maior parte da ciência e da filosofia encontra-se do lado que afirma que a razão, apesar das suas imperfeições e falibilidades, fornece uma norma à qual os pontos de vista concorrentes têm de se submeter para apreciação.» (Grayling, 2002, p. 182)

Nota
Agradeço os comentários de Desidério Murcho e de Jorge Mesquita, que me ajudaram a esclarecer melhor alguns aspetos.

Referências bibliográficas
Cornford, F. M. (1981). Principium Sapientiæ: As Origens do Pensamento Filosófico Grego (2.ª ed). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Fiolhais, C. (2002). A  Coisa Mais Preciosa que Temos. Lisboa: Gradiva.
Grayling, A.C. (2002). O Significado das Coisas. Lisboa: Gradiva.
Hawking, S. e Mlodinow, L. (2011). O Grande Desígnio. Lisboa: Gradiva.
Kenny, A. (2010). Nova História da Filosofia Ocidental, Vol. 1: Filosofia Antiga. Lisboa: Gradiva.
Mautner, T. (2010). Éter. In Dicionário de Filosofia. Lisboa: Edições 70.
Mora, J.F. (1981). Elemento. In Diccionário de Filosofia, 2 (3.ª ed.). Barcelona: Alianza Editorial.
Murcho, D. (2016). Todos os Sonhos do Mundo e Outros Ensaios. Lisboa: Edições 70.
Revel, J-F. (1971). História da Filosofia Ocidental, Vol. 1. Lisboa: Moraes Editores.

Originalmente publicado na revista defacto, n.º 26, maio 2018 (revista da Escola Secundária de Alberto Sampaio).


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Igualdade e discriminação

Temas/Problemas do mundo contemporâneo:  Igualdade e discriminação
Recursos para o trabalho

- Manual de Filosofia 10.º ano:
Almeida, A., Teixeira, C. e Murcho, D. (2013). 50 Lições de Filosofia – Filosofia 10.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
- Wolf, J. (2004). Introdução à Filosofia Política. Lisboa: Gradiva, pp. 263-287.
- Blogue Filosofia na Esas. https://filosofianaesas.blogspot.pt/


Página web da biblioteca escolar:


- Materiais disponibilizados pelo professor, em

- Enciclopédias e Dicionários de Filosofia.
- Internet.

- Aplicação web: Padlet https://padlet.com/
 - Ferramentas digitais para:
Animação:
Go animate - http://goanimate.com/
Gravação áudio de podcast:
Banda desenhada:
Storyboard:
- Movie Maker ou outro software/ aplicação de edição de vídeo.
- Computadores, portáteis, tablets ou smartphones com ligação à Internet.