terça-feira, 13 de novembro de 2018

Pseudociência

Pseudociência, ou falsa ciência, é tudo o que pretende passar por ciência, talvez na tentativa de obter o prestígio e o reconhecimento de que a ciência goza, mas não é de facto ciência. E não é ciência porque não reconhece de forma permanente e inequívoca a exis­tência de eventuais erros. Um cientista procura sempre saber se está enganado (se está, fica contente quando deixa de estar). Um pseudocientista, se esta designação faz algum sentido como pro­fissão, não admite que se engana e não procura por isso o erro (mais: costuma ficar irritado quando lhe apontam o dislate). As atividades pseudocientíficas são numerosas no mundo de hoje: exemplos são a numerologia, a astrologia, a radiestesia, a alquimia, a quiromancia, etc., etc. Há até quem leia o futuro nas borras do café, tendo esse ofício não só uma designação especifica, como uma comunidade de adeptos. São mais as pseudociências do que as ciências.
Existe, em geral, uma relação histórica entre pseudociência e ciência: aquela precedeu esta (a numerologia foi anterior à matemá­tica, a astrologia anterior à astronomia, a alquimia anterior à química). Poderia, por isso, pensar-se que as pseudociências teriam sido substituídas pelas ciências e abandonadas, mas não é assim: as pseudociências coexistem hoje com as ciências, confundindo-se umas e outras aos olhos e nos cérebros de muita gente. Um paradoxo muito interessante das sociedades desenvolvidas (e cujo desenvolvimento deriva precisamente do cultivo das ciências e das tecnologias) é o facto de as pseudociências continuarem a ocupar um papel socialmente relevante.
Mas convém estar atento e descobrir as diferenças: assim como a definição de atividade científica — a busca do erro — não assenta nas várias atividades pseudocientíficas, também os traços característicos da ciência — a comunicação e a acumulação — não se encontram onde a ciência falta. A astrologia não é astronomia porque um astrólogo não se expõe à critica dos pares (onde é que já se viu um astrólogo corrigir outro?) e porque a astrologia de hoje é essencialmente a astrologia de há um século (pode até ser feita com computadores, mas a forma não rejuvenesce o conteúdo).
Usando estes critérios simples, não será difícil ao leitor distinguir entre o que é ciência e o que, não o sendo, quer passar por ela.
Portugal, um pais em desenvolvimento, está cada vez mais exposto a correntes pseudocientíficas. Qual é o remédio? Mais ciência, mais cultura científica. Os cientistas, os professores de ciências, os cidadãos cientificamente cultos têm o dever, mais do que o direito, de mostrar ao público o valor da ciência, o que ela já conseguiu para o enriquecimento humano e o mais que poderá ainda conseguir (e que excede em muito os resultados da tecnologia que nos têm garantido a sobrevivência física). A ciência é um ingrediente da cultura, da civilização neste planeta. Nas palavras autori­zadas de Albert Einstein, escolhido pela revista Time como «homem­ do século»:
Comparada com a realidade, a nossa ciência pode parecer primi­tiva e infantil, mas é a coisa mais preciosa que temos.

Fiolhais, C. (2002). A coisa mais preciosa que temos. Lisboa: Gradiva, pp. 20-21.

Demarcação

Há um grande ceticismo sobre a possibilidade de se distinguir efetivamente a ciência da não-ciência. A ideia de que não podemos ter um critério de demarcação satisfatório é motivada pelas tentativas falhadas de prover tal critério no passado, e pela observação da diversidade cada vez maior de métodos e finalidades das disciplinas que somos inclinados a considerar como científicas. Como podemos esperar oferecer uma explicação unificada do que faz da investigação uma investigação científica, em disciplinas tão diferentes como a física, a geologia e a economia?
Ainda que a tarefa de delimitar a ciência possa parecer infrutífera, há muito boas razões para continuar a insistir. É importante saber em que especialistas se deve confiar, que projetos de investigação financiar, que teorias ensinar nas escolas. E as decisões sobre estas questões não podem ser tomadas apenas com base na consistência teórica ou na aparente adequação da teoria aos dados empíricos. Precisamos de uma explicação do que a ciência é, do que os cientistas fazem e de que metas e métodos caracterizam a investigação científica. Não é provável que a explicação bem‑sucedida (se é que tal coisa existe) seja muito específica, pois é um facto que a especialização conduziu a uma série de conceitos diferentes de indícios e, além do mais, a diferentes critérios para o êxito nas ciências naturais e entre estas e as ciências sociais.
As questões ligadas à delimitação da ciência adquirem grande importância na sociedade contemporânea, onde a ciência é investida de uma autoridade e responsabilidade especiais. Os cientistas são muitas vezes quem aconselha os governantes sobre as políticas a seguir, e as suas opiniões são amplamente solicitadas e ouvidas nos meios de comunicação. Em virtude dos seus conhecimentos especializados, do seu estatuto enquanto cientistas, alguns deles são chamados a encontrar soluções para muitos dos nossos problemas quotidianos, desde lidar com os efeitos das secas a evitar que novos programas de ensino produzam efeitos adversos nas crianças. Se é atribuída tanta responsabilidade quer aos cientistas quer à comunidade científica como um todo, parece que precisamos com alguma urgência de uma explicação sobre o que é uma disciplina propriamente científica, por oposição ao exercício de disciplinas que não partilham da mesma respeitabilidade e autoridade social, como a astrologia e a quiromancia. Além do mais, fazer investigação científica em muitas áreas (em biomedicina, agricultura, em recursos energéticos renováveis, por exemplo) pode trazer grandes benefícios às pessoas e às sociedades, e portanto é algo que deveria ser amplamente apoiado e promovido. Se a ciência tem algum valor num contexto de recursos públicos limitados, ele está em fazer pressão para que possamos ser capazes de identificar exemplos genuínos de investigação científica e projetos de investigação válidos.
Na tradição, a discussão sobre o critério de demarcação entre a ciência e a não-ciência estruturava-se em torno da tentativa de explicar por que razão a física é uma ciência e a astrologia não, e de que maneira o método científico é diferente da magia ou da revelação divina. Hoje, porém, os filósofos que se interessam pelo critério de demarcação têm em mente um conjunto de questões inter-relacionadas, e não aspiram necessariamente a fornecer uma descrição da ciência que responda a todas elas de uma só vez.
Eis uma lista provisória:
·      Será que o tema da investigação é importante para se saber se um projeto de investigação é considerado científico?
·      Podem a antropologia, a psicologia e a economia ser consideradas ciências legítimas mesmo não sendo governadas por leis?
·      O criacionismo tem a aparência superficial de uma ciência. Ora, por que razão não é visto por muitos como uma teoria científica legítima?
·      Qual é a diferença entre a filosofia e a ciência, uma vez que ambas pretendem chegar a uma melhor compreensão dos fenómenos à nossa volta?
No século xx, filósofos inspirados por um movimento chamado Positivismo Lógico analisaram formas de obter e organizar conhecimento com vista a identificar diferenças importantes entre a ciência e a metafísica e entre a ciência e a ética. Os positivistas lógicos, muitos dos quais formados em ciências naturais, sociais ou matemática, acreditavam fortemente no valor da ciência (é por isso que se chamam positivistas lógicos), tentando justificar o seu estatuto de única fonte respeitável de conhecimento factual ao analisarem a estrutura lógica e a linguagem das alegações de conhecimento (é por isso que se chamam positivistas lógicos). Um dos objetivos deste capítulo é passar em revista e avaliar os pontos fortes e as limitações da sua explicação da demarcação entre a ciência e a não-ciência, antes de passar ao exame dos desenvolvimentos posteriores das suas ideias e das objeções que tal explicação originou.
Algumas destas objeções podem ser encontradas nas obras de Karl Popper, Paul Thagard e Paul Feyerabend. Popper, que partilha alguma da ênfase dos positivistas lógicos no valor e na objetividade da ciência, segue uma linha de orientação diferente na sua procura de um critério de demarcação. Acredita que a ciência é a tarefa racional por excelência e procura ativamente uma estratégia viável para distinguir as teorias científicas genuínas das teorias que à primeira vista parecem científicas, mas que não conseguem sê-lo (exemplos de pseudociência).
Ao contrário de Popper e dos positivistas lógicos, Thomas Kuhn dá ênfase aos fatores históricos e sociais que determinam o êxito de uma teoria científica ou de um projeto de investigação. Uma teoria ou um projeto podem ser considerados científicos num contexto histórico e social mas não noutro, pois os critérios que uma teoria ou um projeto precisam de satisfazer para poderem ser considerados ciência também variam com base na análise feita por Kuhn da ciência sensível à história, Thagard desenvolve um critério de demarcação dependente do contexto, que tenta explicar por que razão algumas disciplinas podem ver o seu estatuto mudar de científico para pseudocientífico ou vice-versa. Feyerabend adota uma posição mais radical, negando qualquer espécie de estatuto especial à ciência. Argumenta contra a pretensa supremacia da metodologia científica sobre tradições alternativas de pensamento.

Bortolotti, L. (2013). Introdução à filosofia da ciência. Lisboa: Gradiva, pp. 17-20.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

ELEMENTOS DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA E DA CIÊNCIA

António Padrão


Ciência e filosofia: uma origem comum
A 14 de março de 2018, morreu Stephen Hawking, o mais conhecido cientista da atualidade e um dos mais extraordinários cientistas de sempre. A 14 de março de 1879 (139 anos antes da morte de Stephen Hawking), nasceu, em Ulm, na Alemanha, Albert Einstein, autor da Teoria da Relatividade e Prémio Nobel da Física, em 1921. A 8 de janeiro de 1642, 300 anos antes do nascimento de Stephen Hawking, morreu Galileu Galilei — o pai da ciência moderna.
Stephen Hawking (1942-2018), Albert Einstein (1879-1955) e Galileu Galilei (1564-1642) são três dos mais conhecidos herdeiros de uma tradição que teve o seu início no séc. VI a.C., na Grécia antiga, mais precisamente na cidade de Mileto, na Jónia — uma colónia grega na Ásia Menor —, com pensadores como Tales (c.625-545 a.C.), Anaximandro (c.610-547 a.C), Anaxímenes (fl. 546-525 a.C.) — que criaram a primeira escola filosófica grega (a Escola de Mileto) —  e outros que se lhes seguiram.
A partir do século VI a.C., os elementos de religião, ciência e filosofia fermentam juntos num caldeirão cultural. Com a nossa distância temporal, os filósofos, os cientistas e os teólogos podem todos olhar para trás, para estes primeiros pensadores, e considerá-los seus antepassados intelectuais. (Kenny, 2010, p. 21)
A ciência, a filosofia e o pensamento racional que as caracteriza surgiram, pois, no século VI a.C., na Grécia (apesar de o próprio pensamento grego ter sofrido influências egípcias e de alguns autores indicarem que a China e, sobretudo, a Índia tinham especulações que mereciam ser consideradas filosóficas, apresentamos aqui a tradição ocidental iniciada na cultura grega). É verdade que o pensamento racional não se apresentou logo em toda a sua clareza e autonomia, não havendo uma distinção clara entre religião, ciência e filosofia. Mas o que fizeram estes primeiros pensadores para que, hoje, filósofos e cientistas os considerem seus antepassados intelectuais?
É aos pensadores jónicos (Tales, Anaximandro e Anaxímenes) que se devem as primeiras especulações racionais acerca da origem de todas as coisas. E o que distingue estas especulações das fantasias dos mitos é a tentativa de dar explicações da realidade com base na razão. Ao contrário dos que tudo procuravam explicar através dos mitos, os primeiros filósofos procuraram explicar o que é a natureza, o que são as cosias, qual a substância de que todas as coisas são feitas, como surgiu, do estado primitivo das coisas, este mundo multiforme e ordenado (Cornford, 1981, p. 258).
O interesse dos filósofos jónicos foi orientado para a observação e  interpretação dos fenómenos naturais, razão pela qual se chama a estes primeiros filósofos fisiólogos, quer dizer, os que estudam a physis, a natureza. A observação direta do mundo visível é o ponto de partida para a elaboração racional das suas teorias. Mesmo que saibamos, hoje, que as suas teorias estavam erradas, a verdade é que vemos, desde os jónicos,
manifestarem-se já certos traços essenciais do futuro pensamento científico: desembaraçar o espírito de todos os preconceitos, de todas as teorias pré-concebidas, religiosas ou não, de tudo o que impede o acesso [ao conhecimento], para o tornar capaz de acolher os dados da experiência; só é verdade aquilo que se demonstra, verifica ou prova; não há fenómenos sem causa, explicar é encontrar a causa; o acaso e o sobrenatural não são explicações; um fenómeno natural deriva sempre de outro fenómeno natural; existe, por fim, uma ordem fundamental da natureza, um «cosmos» (palavra que quer dizer «ordem»), regido por princípios constantes, por leis. (Revel, 1971, p. 23)

Os quatro elementos: terra, água, ar e fogo
Afinal, que resposta deram os primeiros filósofos ao problema de saber de que são feitas as coisas? Qual a substância imutável subjacente a todas as mudanças do mundo natural?
Tales de Mileto, o pai fundador da filosofia grega e um dos Sete Sábios da Grécia, pensava que o princípio de todas as coisas, a substância primeira da qual todas as outras seriam apenas modificações, é a água. Talvez Tales tenha pensado que tudo provinha da água, por ter observado que todos os animais e plantas precisam de água para viver ou pelo facto de a vida animal principiar no fluido seminal. Pelo menos, é esta a conjectura de Aristóteles sobre as razões de Tales para considerar que a substância universal de que as coisas são feitas é a água. Até a terra, pensava Tales, assentava sobre a água, como um tronco a flutuar.
Sucessor de Tales na direção da Escola de Mileto, Anaximandro pensava que a substância original não podia ser nenhum dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo), mas uma substância indeterminada subjacente aos quatro elementos. O princípio de todas as coisas é o apeiron — palavra que significa infinito, não no sentido matemático, mas no sentido de ilimitado ou indeterminado. Este princípio constituía uma espécie de unidade indistinta, da qual se engendram, por um processo de separação dos contrários, todas as coisas. Os primeiros contrários a surgir da matéria eterna indeterminada foram o calor e o frio, a partir dos quais se desenvolveram o fogo e a terra, que estão na origem do nosso universo. O apeiron é uma entidade imortal e incorruptível. Com o tempo, todas as coisas regressarão a essa unidade, a essa indeterminação, donde saíram.
Anaxímenes, discípulo de Anaximandro, considerou o apeiron do seu mestre um princípio demasiado abstrato e defendeu que o primeiro princípio da natureza, e aquilo sobre o qual a Terra repousa, é o ar. É do ar que nascem todas as coisas, por condensação e rarefação.
No seu estado estável o ar é invisível, mas quando é deslocado e condensado, torna-se primeiro vento, depois nuvem e a seguir água, e, por fim, a água condensada transforma-se em lama e pedra. O ar rarefeito torna-se fogo, completando assim a gama de elementos.   Desta forma, a rarefacção e a condensação conseguem conjurar tudo a partir do ar subjacente [...]. Para corroborar esta afirmação, Anaxímenes fazia apelo à experiência e, na verdade, à experimentação — experimentação que o leitor poderá facilmente realizar. Sopre na mão, primeiro com os lábios juntos e depois com a boca aberta — da primeira vez, o ar será frio; da segunda, quente. Isto, afirmava Anaxímenes, demonstra a relação entre densidade e temperatura [...]. (Kenny, 2010, p. 26)
A seguir aos filósofos da Escola de Mileto, os filósofos mais importantes são os da Escola Pitagórica, cujo fundador foi Pitágoras (c.570-495 a.C.), natural de Samos, uma ilha ao largo da costa da Ásia Menor. É a Pitágoras que se atribui a invenção da palavra «filósofo», isto é, amante da sabedoria, em oposição ao sábio (sofos). Pitágoras é conhecido, sobretudo, pelo teorema que tem o seu nome (apesar de ser muito duvidoso que tenha sido o primeiro a descobri-lo), segundo o qual o quadrado da hipotenusa de um triângulo retângulo é igual em área à soma dos quadrados dos outros dois lados.
Para os pitagóricos, o número é o princípio de todas as coisas.  Os números são os elementos diretamente representativos da realidade, ou melhor, das formas geométricas da realidade. Aquilo que faz com que as coisas sejam o que são é a sua estrutura geométrica ou forma. Estamos, pois, perante um princípio formal e já não material, como para os milésios.
Em meados do século VI a.C., a Jónia foi invadida pelos persas, tendo a cidade de Mileto sido destruída em 494 a.C. — o que obrigou a maior parte dos filósofos de origem jónica a mudarem-se para outras regiões do mundo grego: Siracusa, Agrigento, Crotona, Eleia. Com a morte de Pitágoras e a destruição de Mileto, termina a primeira fase do pensamento pré-socrático.
Alguns dos filósofos seguintes continuam a propor uma cosmologia e a procurar os elementos básicos que estão na origem de todas as coisas. Para Xenófanes de Cólofon (c.570-470 a.C), há dois elementos (terra e água); para Heraclito (c.535-475 a.C.), o elemento é o fogo (às vezes, também refere a terra e a água) e para Parménines (c.530-460 a.C), os elementos eram «formas». Anaxágoras (c.500-428 a.C) falou de um número infinito (ou indefinido) de elementos qualitativamente distintos (as homeomerias) e Demócrito (c.460-370 a.C.) de um número infinito de elementos (os átomos), mas é a Empédocles (c.492-432 a.C.) que se deve a formulação mais precisa da chamada «doutrina dos quatro elementos»: fogo, água, ar e terra (Mora, 1981, p. 909).
A filosofia da natureza de Empédocles constitui uma síntese do pensamento dos filósofos jónicos (Kenny, 2010). Empédocles pensa que o fogo, a água, o ar e a terra são as quatro substâncias, ou quatro raízes, que estão na origem de tudo quanto existe no universo. Estas substâncias, que existem desde sempre, combinam-se entre si pelo efeito de duas forças (o Amor e a Discórdia).
Empédocles ficou ainda conhecido por ter apresentado uma teoria da evolução através da sobrevivência do mais forte, o que levou Darwin a fazer-lhe um cumprimento n’A Origem das Espécies por «insinuar o princípio da seleção natural» (citado por Kenny, 2010, p. 40).
A doutrina dos quatro elementos exerceu uma grande influência na Antiguidade, na Idade Média e mesmo na época moderna. Filósofos e cientistas atribuíram-lhe um papel fundamental na física e na química, até ao século XVII — o século em que Robert Boyle (1627-1691), um físico e químico irlandês, considerado um dos fundadores da química, refutou a doutrina dos quatro elementos.
Apesar de ter sido refutada, a doutrina dos quatro elementos está na base de uma ideia fundamental:
Acreditar que podemos compreender a natureza última do universo se compreendermos os seus elementos mais simples é a base da grande aventura do conhecimento. Como todas as instituições, pode ser adequada ou inadequadamente desenvolvida, como se vê no contraste entre a química e a alquimia. (Murcho, 2016, pp. 255-256)

O quinto elemento: o éter
Aos quatro elementos de Empédocles, Aristóteles (384-322 a.C.) acrescenta um quinto: o éter (quinta-essência). Para Aristóteles, «a Terra é circundada por camadas de água, ar, fogo e, na parte mais externa, por algumas abóbadas que suportam os corpos celestes e consistem de um quinto elemento chamado ‘éter’» (Mautner, 2010, p.275). Os corpos terrestres eram constituídos pelos quatro elementos, mas os corpos celestes — os astros imortais — eram constituídos pelo éter.
O éter viria a desempenhar um papel importante na física clássica, uma vez que «seria o meio através do qual as ondas electromagnéticas se propagam, tal como o som se propaga através do ar.» (Hawking e Mlodinow, 2011, p. 98). No século XIX, a existência do éter era ainda dada como certa. Por exemplo, em 1884, Sir William Thomson, um famoso físico, mais conhecido como Lorde Kelvin, afirmou que o éter era «a única substância na dinâmica sobre cuja existência temos a certeza. Se há coisa de que estamos seguros é da realidade e substancialidade do éter luminífero» (citado por Hawking e Mlodinow, 2011, p. 101). Alguns anos mais tarde, a teoria da relatividade de Einstein viria a tornar obsoleta a hipótese da existência do éter. Afinal, o éter não existe nem precisa de existir, ao contrário do que tinham postulado os cientistas, no século XIX.

Razão
Apesar de reconhecerem a abordagem racional e a importância da ciência jónica na história das ideias humanas, Hawking e Mlodinow (2011, p. 25) não deixam de assinalar que por «mais perspicazes que algumas especulações dos antigos gregos sobre a Natureza tenham sido, a maior parte das suas ideias não poderia ser validada como ciência nos tempos modernos», com o que, evidentemente, concordamos. Os primeiros pensadores gregos não eram verdadeiros cientistas nem verdadeiros filósofos, e as suas explicações racionais misturam-se com especulações míticas, místicas e religiosas. Por exemplo, Tales, para além de ter afirmado que a água é o primeiro princípio de todas as coisas, também afirmou que todas as coisas estão cheias de deuses; e terá comemorado a descoberta do método para inscrever um triângulo retângulo num círculo com a oferta de um boi aos deuses. Pitágoras, apesar de ser conhecido como matemático, teve uma atividade principalmente religiosa, relacionada com os mistérios órficos, acreditando que a alma renascia noutros corpos (metempsicose). E Empédocles, influenciado por Pitágoras, também acreditava que as almas estão condenadas ao ciclo do nascimento e do renascimento, reencarnando como plantas, animais e seres humanos.
A razão não surgiu das trevas de um momento para o outro; pelo contrário, pensamento racional, pensamento mítico e pensamento religioso interpenetraram-se nas especulações dos primeiros filósofos.
Na Grécia antiga descobriu-se — esse foi um dos maiores avanços da humanidade — que as disputas entre humanos a respeito de certos assuntos se podiam dirimir com base numa boa discussão, que consiste na oferta e aceitação de argumentos e contra-argumentos, no apuramento das melhores razões de acordo com regras mutuamente aceites e na chegada a uma conclusão que é partilhada e transmitida a outros. [...] Foi, em suma, o alvorecer da racionalidade, pese embora esta ter continuado a coexistir com mitologias, superstições e medos. Começou o que podemos chamar idade da razão. (Fiolhais, 2002, pp. 38-39)
É verdade que a razão nem sempre é bem usada e enfrenta vários inimigos: a religião, o relativismo, o «pós-modernismo», a «pós-verdade», mas — felizmente — a «maior parte da ciência e da filosofia encontra-se do lado que afirma que a razão, apesar das suas imperfeições e falibilidades, fornece uma norma à qual os pontos de vista concorrentes têm de se submeter para apreciação.» (Grayling, 2002, p. 182)

Nota
Agradeço os comentários de Desidério Murcho e de Jorge Mesquita, que me ajudaram a esclarecer melhor alguns aspetos.

Referências bibliográficas
Cornford, F. M. (1981). Principium Sapientiæ: As Origens do Pensamento Filosófico Grego (2.ª ed). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Fiolhais, C. (2002). A  Coisa Mais Preciosa que Temos. Lisboa: Gradiva.
Grayling, A.C. (2002). O Significado das Coisas. Lisboa: Gradiva.
Hawking, S. e Mlodinow, L. (2011). O Grande Desígnio. Lisboa: Gradiva.
Kenny, A. (2010). Nova História da Filosofia Ocidental, Vol. 1: Filosofia Antiga. Lisboa: Gradiva.
Mautner, T. (2010). Éter. In Dicionário de Filosofia. Lisboa: Edições 70.
Mora, J.F. (1981). Elemento. In Diccionário de Filosofia, 2 (3.ª ed.). Barcelona: Alianza Editorial.
Murcho, D. (2016). Todos os Sonhos do Mundo e Outros Ensaios. Lisboa: Edições 70.
Revel, J-F. (1971). História da Filosofia Ocidental, Vol. 1. Lisboa: Moraes Editores.

Originalmente publicado na revista defacto, n.º 26, maio 2018 (revista da Escola Secundária de Alberto Sampaio).


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Igualdade e discriminação

Temas/Problemas do mundo contemporâneo:  Igualdade e discriminação
Recursos para o trabalho

- Manual de Filosofia 10.º ano:
Almeida, A., Teixeira, C. e Murcho, D. (2013). 50 Lições de Filosofia – Filosofia 10.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
- Wolf, J. (2004). Introdução à Filosofia Política. Lisboa: Gradiva, pp. 263-287.
- Blogue Filosofia na Esas. https://filosofianaesas.blogspot.pt/


Página web da biblioteca escolar:


- Materiais disponibilizados pelo professor, em

- Enciclopédias e Dicionários de Filosofia.
- Internet.

- Aplicação web: Padlet https://padlet.com/
 - Ferramentas digitais para:
Animação:
Go animate - http://goanimate.com/
Gravação áudio de podcast:
Banda desenhada:
Storyboard:
- Movie Maker ou outro software/ aplicação de edição de vídeo.
- Computadores, portáteis, tablets ou smartphones com ligação à Internet.

defacto, número 26, maio 2018

Já saiu o número 26 da defacto, a revista da Escola Secundária de Alberto Sampaio.
Eis a capa e o índice:


domingo, 10 de dezembro de 2017

Retórica

No século XXI, a literacia da exposição oral deveria ser ensi­nada em todas as escolas. Com efeito, antes da era dos livros, era considerada uma parte verdadeiramente crucial da educação, embora sob um nome antiquado: retórica. Hoje em dia, na era em que todos estão ligados, deveríamos ressuscitar essa arte nobre e transformá-la no quarto R da educação: leituRa, escRita, aRitmé­tica e Retórica.

O significado nuclear da palavra é, apenas, «a arte de falar com eficácia» e, fundamentalmente, esse é o objetivo deste livro, reformular a retórica para os tempos modernos, proporcionar trampolins úteis para uma nova literacia da apresentação oral.

Anderson, Chris (2016). TED talks – O guia oficial TED para falar em público. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores, p. XV.

O grande alcance da razão

Aquilo que a razão tem de especial é ser capaz de chegar a uma conclusão com um nível de certeza diferente do de qualquer outro instrumento mental. Numa discussão lógica, desde que os pressupostos de partida sejam verdadeiros, então as conclusões argumentadas validamente também devem ser verdadeiras e pode saber-se que são verdadeiras. Se conseguir levar, convincentemente, alguém através de uma discussão lógica, a ideia que colocou na mente dessa pessoa instalar-se-á nela e nunca a deixará.
Mas para que o processo funcione, tem de ser fragmentado em pequenos passos e cada um deles tem de ser totalmente convincente. O ponto de partida de cada passo é algo que o público pode ver claramente que é verdadeiro ou algo que, num momento anterior da palestra, se provou ser verdadeiro. Assim, o mecanismo nuclear, neste caso, é se-então: se X é verdadeiro, então, é claro, segue-se Y (porque todo o X implica um Y).

Anderson, Chris (2016). TED talks – O guia oficial TED para falar em público. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores, p. 97.