segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Racionalismo e empirismo

Os racionalistas acentuam a importância do conhecimento a priori, e aqui será útil introduzir um pensador racionalista de vulto e avaliar o papel do conhecimento a priori na sua epistemologia. Descartes é porventura o epistemólogo mais influente da filosofia ocidental[...]. As suas Meditações foram escritas num tom autobiográfico: o filósofo aparece-nos sentado à lareira, matutando sobre a natureza do conhecimento. Primeiro, levanta algumas dúvidas de natureza céptica no sentido de que poderemos não ter qualquer conhecimento do mundo [...]; no entanto, encontra salvação num elemento seguro do conhecimento: «cogito, ergo sum» («Penso, logo existo»); isto é por vezes referido como o cogito. A nossa própria existência é algo acerca do qual não podemos estar enganados. Depois, usando um raciocínio inteiramente a priori, tenta demonstrar que Deus também existe [...]. Deus, bom como é — uma vez mais, algo que podemos saber a priori — não poderia permitir que fôssemos criaturas epistemicamente tão limitadas, e assim temos certas crenças justificadas acerca do mundo empírico. Certos aspectos cruciais da epistemologia de Descartes são, pois, desenvolvidos por meio do raciocínio a priori. Importa esclarecer, no entanto, que Descartes não renega toda a experiência. Depois de encontrarmos uma demonstração a priori da existência de Deus, temos de proceder a observações cuidadosas do mundo a fim de adquirir maior conhecimento. No entanto, é o conhecimento a priori que permite, em última instância, justificar as crenças empíricas que adquirimos dessa forma.
Os empiristas aceitam que algumas verdades podem ser conhecidas a priori, mas essas verdades são consideradas desinteressantes, não-instrutivas e tautológicas. Ao tomarmos conhecimento de que os solteiros são homens não-casados, não aprendemos nada de substancial acerca do mundo, mas apenas algo acerca do significado das nossas palavras, ou seja, que, em português, «solteiro» tem o mesmo significado que «homem não-casado».
[A]s verdades da razão pura, as proposições que sabemos serem válidas independentemente de toda a experiência, são-no em virtude da sua falta de conteúdo factual. Dizer que uma proposição é verdadeira a priori é dizer que é uma tautologia. E as tautologias, embora possam servir para nos guiar na nossa demanda empírica do conhecimento, não contêm em si mesmas qualquer informação sobre qualquer questão de facto. (Ayer, 1990, p. 83)
Este tipo de conhecimento é a priori porque pode ser adquirido em virtude da mera compreensão dos conceitos relevantes; não requer qualquer outro tipo de investigação do mundo. Os empiristas afirmam que todas as verdades a priori são «analíticas», tal como as descreveu Immanuel Kant. São verdadeiras em virtude dos significados dos termos utilizados para as exprimir, e a sua verdade só pode ser descoberta com recurso à análise filosófica. As verdades analíticas contrastam, deste ponto de vista, com as verdades que são «sintéticas». As verdades sintéticas não dependem apenas do que os nossos termos significam, mas também daquilo que o mundo revela ser. O facto de os coalas comerem folhas de eucalipto não faz parte do conceito de COALA; não obstante, é verdadeiro, e é-o porque descobrimos que é isto que os coalas fazem. E uma verdade sintética. Não devemos, no entanto, equiparar a distinção entre o empírico e o a priori à distinção entre o sintético e o analítico. A primeira é uma distinção epistemológica: tem a ver com a fonte da justificação para as nossas crenças. A segunda é uma distinção semântica: o que está em causa é se certas verdades o são apenas em virtude dos significados dos conceitos relevantes. Apesar de estas distinções dizerem respeito à justificação e ao significado, respectivamente — dois aspectos distintos da linguagem e do pensamento — o empirista afirma que elas moldam o nosso conhecimento da mesma maneira: todo o nosso conhecimento a priori, e apenas ele, é analítico, e todo o nosso conhecimento empírico, e apenas ele, é sintético. O único conhecimento independente da nossa experiência que podemos ter é, segundo o empirista, o que diz respeito ao significado das nossas palavras e pensamentos; qualquer conhecimento substancial do mundo deve ser adquirido através da experiência.

O'Brien, D. (2013). Introdução à teoria do conhecimento. Lisboa: Gradiva, pp. 61-63.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Será a matemática a priori ou a posteriori?


«A matemática, apresentada com rigor, é uma ciência dedutiva sistemática, mas a matemática em desenvolvimento é uma ciência indutiva experimental.

Na matemática, tal como nas ciências físicas, podemos utilizar a observação e a indução para descobrir leis gerais. Mas existe uma diferença. Nas ciências físicas, não há maior autoridade do que a observação e a indução, enquanto, na matemática, há uma tal autoridade: a demonstração rigorosa.»

Polya, G. (2003). Como resolver problemas. 1.ª ed. Lisboa: Gradiva, pp. 141-142.

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Polya (1887-1985) foi professor de Matemática na Universidade de Stanford.

domingo, 18 de janeiro de 2015

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Comemoração do Dia Mundial da Filosofia

O Grupo de Filosofia da Escola Secundária de Alberto Sampaio comemora o Dia Mundial da Filosofia com as seguintes atividades:




domingo, 16 de novembro de 2014

Demonstração e argumentação

Uma dedução é um argumento que, dadas certas coisas, algo além dessas coisas necessariamente se segue delas. É uma demonstração quando as premissas das quais a dedução parte são verdadeiras e primitivas, ou são tais que o nosso conhecimento delas teve inicialmente origem em premissas que são primitivas e verdadeiras; e é uma dedução dialéctica se raciocina a partir de opiniões respeitáveis.
Aristóteles, Tópicos, 100ª

Considerando o tipo de argumentos cuja validade é dedutiva, Aristóteles distingue a «demonstração» da «dedução dialética».
Mas, o que existe de comum e de diferente entre uma demonstração e uma dedução dialética? Comparemos os seguintes argumentos:
1) 100 é um número inteiro divisível por 2.
    Todo o número inteiro divisível por 2 é um número par.
Logo, 100 é um número par.

          2) O dever de não mentir é um dever moral.
    Todos os deveres morais são absolutos.
              Logo, o dever de não mentir é um dever absoluto.

a)     Os argumentos 1 e 2 têm a mesma forma lógica, que pode ser representada deste modo:
                                    Algum A é B.
                                Todo o B é C.
                                Logo, algum A é C.

(NB: As letras A, B, C simbolizam termos gerais que designam uma dada classe ou coleção de coisas, como «100» ou «o dever de não mentir», «número inteiro divisível por 2» ou «dever moral», etc.)

b) Os argumentos 1 e 2 são, ambos, dedutivamente válidos. Portanto, é impossível que sendo as suas premissas verdadeiras a conclusão possa ser falsa.
c)  E, sendo 1 e 2 argumentos dedutivamente válidos, se tiverem premissas verdadeiras, ambos serão argumentos sólidos.
d)    Mas, será que 1 e 2 são ambos argumentos sólidos?

Eis uma diferença entre estes argumentos:
As premissas de 1 são verdades bem estabelecidas e indisputáveis. Qualquer criança sabe distinguir os números pares dos números ímpares, pelo menos desde o 1º Ciclo, e não terá qualquer dificuldade em aceitar a conclusão, e até compreende que não pode deixar de a aceitar obrigatoriamente.
Mas, quanto às premissas de 2, pelo menos a segunda não é uma verdade bem estabelecida e indisputável, nem para as crianças nem mesmo para adultos bem informados. Quando muito, é apenas plausível ou verosímil.
 O que é que se conclui desta diferença?
Conclui-se que o argumento 1 é um argumento sólido. Não é racional aceitar as premissas e não aceitar a conclusão.
Se usarmos a terminologia de Aristóteles, denominar-se-á o argumento 1 de «demonstração», porque é um argumento dedutivo válido, com premissas que são verdades evidentes ou bem estabelecidas, o que implica que é obrigatória a aceitação da sua conclusão, pois esta segue-se logicamente de verdades indisputáveis.
Mas, quanto ao argumento 2, que também é dedutivamente válido, conclui-se que a sua solidez é disputável, porque a verdade da segunda premissa não está bem estabelecida. A proposição de que os deveres morais são absolutos é objeto de uma profunda controvérsia entre utilitaristas e deontologistas, por exemplo, e mesmo entre estes últimos, que em geral são favoráveis a essa ideia, não há uma forma comum de entender o estatuto dos deveres morais.
Por isso, um agente cognitivo, seja criança ou adulto, não está constrangido a aceitar a conclusão do argumento 2 e até é racional contestá-la. Para isso, basta apresentar as melhores razões contra as premissas.
E, se usarmos a terminologia de Aristóteles também neste caso, denominar-se-á o argumento 2 de «dedução dialética», porque é um argumento dedutivo válido com uma premissa cuja verdade é apenas provável ou verosímil.
O universo da argumentação compreende o estudo da lógica formal e da lógica informal. A lógica formal estuda os aspetos lógicos da argumentação que se podem explicar exclusivamente pela forma lógica. A lógica informal estuda os aspetos da argumentação que não dependem exclusivamente da forma lógica. Por isso, a lógica informal também estuda certos aspetos dos argumentos dedutivos válidos, como a relação de plausibilidade das premissas relativamente à conclusão e como a importância e consequências do estado cognitivo dos agentes envolvidos na argumentação para a própria argumentação.

José António Pereira
Escola Secundária de Alberto Sampaio

Demonstração

Estabelecer conclusivamente a verdade de uma proposição é demonstrá-la. Numa demonstração direta, estabelece-se a verdade da proposição p quando se deriva validamente p de premissas verdadeiras. Numa demonstração indireta, a verdade de p é estabelecida quando se refuta não p.
Note-se que «demonstração» (como «demonstrar», «demonstrável», etc.) é um termo factivo. Demonstrar algo é conseguir estabelecer isso, e é diferente de argumentar apenas a seu favor, ou seja, de procurar estabelecer tal coisa. De igual modo, refutar uma afirmação é conseguir mostrar a sua falsidade, e é mais do que argumentar apenas contra ela.

Mautner, T. (2010). Dicionário de filosofia. Lisboa: Edições 70, p. 190.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Curso de formação: Filosofia para crianças e jovens - A comunidade de investigação

De 13 a 21 de outubro de 2014, vai decorrer na Escola Secundária de Alberto Sampaio o curso de formação Filosofia para crianças e jovens - A comunidade de investigação.


domingo, 13 de julho de 2014

Resultados do Exame Nacional de Filosofia 2013-2014 1.ª Fase

As tabelas seguintes resumem os resultados do exame nacional de Filosofia do 11.º ano, na Escola Secundária de Alberto Sampaio comparativamente com os nacionais:

Alunos internos

Número de Exames MédiaCIF Média Exame Dif_EX_CIF Correlação CIF-CE
ESAS 13 15,1 11,8 -3,3 0,82
Nacional 7956 13,7 10,3 -3,4 0,61

Alunos internos e externos

Número de Exames Média Exame
ESAS 25 10,2
Nacional 11513 9,7

Nenhum dos meus alunos foi fazer o exame como interno.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Será a crença em Deus apropriadamente básica?

No próximo dia 30 de maio, Domingos Faria, autor do blogue Sebenta de Filosofia e coautor do manual de Filosofia Como Pensar tudo isto?, estará na Escola Secundária de Alberto Sampaio, em Braga, para proferir uma palestra com o título: Será a crença em Deus apropriadamente básica?
O cartaz de divulgação da palestra está aqui: http://www.esas.pt/dfa/